Bom dia a todos. Muito obrigado, é uma honra e satisfação estar aqui em Adamantina hoje junto com o Bunkyo Rural, que tem sido, como eu coloquei ontem, um parceiro desde a primeira hora, e tem trazido uma boa experiência para mim aqui como Secretário de Agricultura do Estado de São Paulo.

Estive no Japão semana passada com o governador João Dória. O governador João Dória tem a comunidade japonesa em alta estima, vários amigos na comunidade, e reconhece o Japão como um parceiro fundamental, não só para o Estado de São Paulo, como para o Brasil em especial.

O Japão é o país com maior investimento no Brasil na história recente e as conversas que tivemos no Japão foram muito entusiasmantes, no sentido de que os japoneses no Japão, os empresários japoneses, têm muita familiaridade com o Brasil. O fato de haver uma comunidade de japoneses aqui no Brasil faz com que nossos laços sejam muito próximos: financeiros, culturais e, obviamente, sociais. A relação entre o Japão e o Brasil é realmente muito próxima.

Isso levou o governador na reunião que nós tivemos no Keidanren, que é a Associação das Indústrias do Japão, muito poderosa, o governador foi muito contundente e fez uma colocação onde ele exigiu esforços do governo japonês, dos empresários japoneses e do governo do Estado de São Paulo e dos empresários brasileiros para que nós restabelecêssemos um voo direto de São Paulo para o Japão. O governador se mostrou bastante indignado, sendo um país com tanta relação comercial, com tanta relação social e cultural, nós não mais termos um voo direto de uma companhia japonesa, de uma companhia brasileira, direto a Tóquio. Ele fez a comparação em relação ao México, que tem uma relação em todos esses itens menor que a do Brasil, e tem um voo da JAL e da ANA direto para a Cidade do México. É um exemplo de como o governador está firme em fazer essa relação ainda mais forte e ainda mais duradoura.

Eu queria antes de falar um pouco mais agradecer também ao convite e a relação próxima que estamos tendo com o Bunkyo. Não só com o Bunkyo Rural, mas como o Bunkyo como organização. Agradeço a presença do Sr. Jorge Yamashita, conversamos mais cedo um pouco sobre várias experiências, que está representando o Renato, que é um grande amigo que esteve comigo e com o governador antes da minha viagem a Tóquio, e tem sido também um grande parceiro. Agradecer ao Márcio, prefeito aqui de Adamantina, dar os parabéns por Adamantina. Rodei ontem e hoje, a cidade realmente está bem cuidada, bem planejada, e dá a sensação clara de uma preocupação com o senso de propriedade, senso de pertencimento, não só do prefeito, mas das pessoas que moram aqui e tem orgulho e admiração por essa cidade. Eu fiquei bastante satisfeito de estar aqui ontem e agora principalmente porque eu dormi como convidado oficial da cidade de Adamantina. Dormi muito bem. Queria aproveitar e agradecer ao Oswaldo Matsuda, ao Valdomiro, e ao Osvaldo, proprietário do hotel. Tem poucos lugares com o nível do hotel de Adamantina, e, portanto, isso é um vetor de atração de investimento e de atenção para a cidade.

Ao Tomio, que tem sido um grande articulador desse evento do Bunkyo Rural, muito obrigado pelo seu trabalho. E também o Nelson e a Noriko pelo trabalho que tem sido feito para realizar tudo isso em Adamantina.

Uma pena o Cônsul Nogushi não poder estar aqui, conheci ele esse ano, um sujeito fantástico que tem sido importantíssimo na relação entre o Brasil e o Japão.

Só para falar um pouquinho do que eu tenho discutido e falado sobre o agro de São Paulo, o agro do Brasil, eu escrevi algumas coisas que eu coloquei justamente nas visitas que eu fiz nas empresas e no governo japonês na semana passada.

A minha visão é que o agro brasileiro é muito mais que um setor da economia, é um ecossistema de inovação e desenvolvimento que nós temos no Brasil. É o maior vetor de desenvolvimento econômico, social e cultural que nós temos no Brasil. Se pegarmos do Rio Grande do Sul ao Amazonas, eu diria que a maior classe média que temos no Brasil é a classe média rural. É uma classe média que independente das suas diferença regionais, das suas diferenças financeiras, as pessoas se comportam e educam seus filhos de maneira muito parecida e dentro de padrões bem conhecidos. E isso faz com que o pequeno agricultor do Estado de São Paulo, o pequeno agricultor do Estado do Paraná possa ir para o Mato Grosso e administrar uma propriedade muito maior ou se relacionar com uma comunidade de produtores rurais da Bahia da mesma maneira. Ou seja, nós não somos estrangeiros dentro desse grande Brasil, desse grande negócio que é o agronegócio.

A base da economia brasileira é o agro, nós temos aí um PIB de mais ou menos 350 bilhões de dólares. É muito difícil calcular o PIB porque uma hora você coloca uma parte da economia, uma empresa, em outra hora você retira. Então só para ter uma ideia isso vai de 25% a 30%, mas o fato muito relevante é que representa um quarto a um terço da nossa economia, dependendo de como nós olharmos.

O agro é muito mais do que os destaques que a gente sempre dá, que é a produção de soja, de milho, algodão, de carne, ele vai dentro da indústria de alimentos, ele entra na parte de produção de energia, seja energia de combustíveis líquidos, o etanol que está no carro de todos. Hoje nós conseguimos misturar 27% de etanol em toda gasolina que é consumida no Brasil. Eu discuti isso na China e eles estão introduzindo agora 10% de mistura no combustível deles, portanto, a preocupação deles é o que acontece com os motores? E eu disse para ficarem tranquilos, porque nós já estamos em 27%, tem muito espaço para vocês fazerem.

E o agro, então com toda essa riqueza é importante que estão aqui as pessoas da APTA, que é a nossa Agência Paulista de Tecnologia, porque o agro brasileiro é baseado em ciência, e a ciência do agro brasileiro se deve muito à questão da imigração japonesa. Hoje, falamos muito de agricultura de precisão, mas quando os japoneses vieram, nós falamos de imigração japonesa. É o mesmo conceito de fazer bem feito, de fazer com preocupação em obter um resultado maior e melhor com menos esforço, com mais tecnologia e com mais foco.

Esse conhecimento todo tem sido aplicado em várias áreas do agro, desde a pesquisa, passando pelos insumos, dentro da porteira, toda parte industrial, seja de alimentos, seja de máquinas, tratores e outros bens de capital e chegando agora na parte dos serviços. Essa é talvez o que devemos focar nesse momento, o futuro do agronegócio vai passar por nós. Seremos os grandes provedores de soluções para a sociedade.

São Paulo, o Brasil e até diria que São Paulo tem a possibilidade de ser o grande centro desse grande ecossistema, daqui saírem grandes ideias, grandes soluções, grandes empresas, grandes cooperativas, que possam levar soluções para o desenvolvimento através do agro. Se nós vamos desenvolver tecnologia, temos de desenvolver onde há escala. Onde há escala no Brasil é o agronegócio. Portanto, todos que estão aqui inseridos no mundo do agro têm uma grande oportunidade de fazer parte desse projeto que é um projeto vencedor.

Outra grande responsabilidade do agro que temos discutido bastante nos últimos dias é a questão do meio ambiente. É uma responsabilidade do produtor rural, do homem ligado ao agronegócio, fazer a proteção do meio ambiente. Na década de 70, passando por 92, nós tivemos no mundo um grande movimento do ativismo ambiental, cujo propósito era trazer conscientização para a questão dos ativos de meio ambiente. Esse ativismo foi feito muito dentro dos centros urbanos, porque é onde se tem a concentração humana no mundo. Essa consciência está, eu diria, na cabeça de grande parte da população mundial. No entanto, quando ela cumpre seu papel de conscientizar, ela também transfere a responsabilidade para uma nova era, para um novo momento, que é o ambientalismo operacional, que eu chamo de ambientalismo de boutique. Não tem como proteger o meio ambiente a não ser por aqueles que vivem dentro do meio ambiente, por aqueles que usam e protegem o meio ambiente para criação de mais valor, seja para a sociedade, seja para o próprio meio ambiente. Então, é responsabilidade do agro de fato de trazer essa responsabilidade para si, colocar isso dentro dos nossos planos de governança, dentro da nossa responsabilidade, porque senão nós seremos atacados por algo que fazemos todos os dias e temos a grande preocupação em fazer sempre bem feito. Lembrando que o Brasil é um gigante, não só no agro, mas na proteção do meio ambiente, tendo aí 66% de todo o seu território resguardado e protegido por esses guardiões que são os produtores rurais. A grande maioria dessas florestas estão nas propriedades privadas de cada uma das pessoas que estão envolvidas nesse negócio.

Só para concluir e agradecer mais uma vez, temos sempre que lembrar uma frase que tenho falado e que tem muito a ver com esse momento do Bunkyo, muito a ver com família, com agronegócio. Eu queria dizer que tradição, que é o que estamos celebrando aqui hoje, é uma celebração de raízes profundas, de ramos espalhados para todos os lados, como pude ver ontem em Pompéia com a família Nishimura, tradição não é sinônimo de imobilismo. Pelo contrário, tradição é o que nos dá a força e a responsabilidade de inovarmos, de fazermos mudanças quando as mudanças se fazem necessárias. Então, não se preocupem em serem ousados. É importante sermos ousados, fazermos as mudanças, pois é isso que assegurará o nosso futuro. O futuro que vejo para o agronegócio, o futuro que é o tema do debate aqui hoje é exatamente esse futuro da transformação. Vamos mudar, pensar diferente, sempre lembrando de onde nós viemos e o que nós recebemos para fazer melhor em cima dessa grande plataforma que é o Brasil e que são todas as sociedades diversas e maravilhosas que nós temos.

Muito obrigado pelo convite e que seja um excelente evento nesses próximos dois dias.

* Transcrição da palestra de Gustavo Diniz Junqueira, secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), no 10º Bunkyo Rural realizado em Adamantina

 

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