Alysson Paulinelli, ministro da agricultura do presidente Ernesto Geisel, sentado numa cadeira de plástico, comentava e comemorava o resultado de 10 anos do PADAP – Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba numa churrascada organizada pela Cooperativa Agrícola de Cotia.

O ano era 1984, e os jovens agricultores, filhos de cooperados do Paraná e de São Paulo, contemplavam a cena sem dizer nada, pois ainda havia muito a fazer. Depois de um começo difícil, a produtividade havia melhorado, mas a situação ainda não era fácil e todos estavam preocupados com o futuro incerto.

35 anos depois, no mesmo local, chega um ônibus de São Paulo, com o grupo de visita técnica do Bunkyo Rural liderado pelo fazendeiro e presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa, e pelo presidente da comissão Bunkyo Rural, Tomio katsuragawa, composto por 21 agrônomos e produtores rurais, e dois jornalistas.

O que mudou em 35 anos? A cidade, que mais parecia uma aldeia, hoje tem 40 mil habitantes e o prefeito é o agricultor nikkei Seiji Sekita. A Cooperativa de Cotia não existe mais e em seu lugar está a Coopadap – Cooperativa Agropecuária do Alto Paranaíba, onde seus associados ocupam 21 mil hectares do total de 50 mil hectares produtivos de quatro municípios, os quais compõem a mesorregião do Alto Paranaíba. Quem chega à cidade logo avista uma sequência de fazendas, todas planas, com uma agricultura altamente mecanizada e de extensão.

Coopadap no lugar da CAC

Na reunião de apresentação da Coopadap, o que chamou mais atenção foi a juventude de seus dirigentes. Basta dizer que seu presidente é Fabio Shin Iti Endo, que tem apenas 34 anos de idade. Os diretores são jovens e nasceram depois de quando tudo começou. Prova de que a sucessão por aqui não é problema. A responsabilidade para quem administra a Coopadap é do tamanho do cerrado. São 119 associados produzindo cenoura, cebola, batata, alho, beterraba, abacate, café, soja, milho, trigo, feijão, triticale e sementes de trigo e soja. A cooperativa tem 18 silos metálicos com capacidade para armazenar 48 mil toneladas, e um silo graneleiro com capacidade para 18 mil toneladas. Há também uma unidade de beneficiamento de sementes com capacidade de produzir 100 mil sacas de soja e trigo, uma máquina de beneficiamento e estrutura para armazenamento de 150 mil sacas de café beneficiado, uma unidade de beneficiamento de cenoura e beterraba (visitada pelo grupo e que beneficia de 120 a 150 mil caixas de 20 kg de cenoura por mês), e um armazém de insumos. E para dar suporte às novas variedades e novos produtos, a cooperativa possui uma Estação Experimental, herdada da antiga Cooperativa de Cotia, que mantém parceria com diversas instituições públicas e privadas. Aqui se testam sementes, fertilizantes, defensivos e máquinas. O conhecimento adquirido é compartilhado em dias de campo, fazendo com que a produtividade em geral seja muito alta.

Trata-se de um contraste com o que era a região no passado. “Cerrado, só se for dado ou herdado”, dizia a sabedoria popular na época da implantação do Padap, na década de 1970.

Os primeiros 89 colonos assentados pela Cooperativa Agrícola de Cotia, em 1974, conseguiram 805 toneladas de soja em 2 mil hectares cultivados, o que dá uma produtividade de 6,7 sacas por hectare. Com a Estação Experimental em funcionamento, no ano seguinte, a produtividade subia para 18,4 sacas por hectare, e em 1979, atingia 35,9 sacas em média, o que foi um grande progresso, mas muito pouco se compararmos com os números atuais. Mesmo assim, a soja era o principal produto da região, ocupando 19 mil hectares dos cooperados, que colheram naquele ano 41 mil toneladas. São Gotardo produziu 10.356.440 toneladas de soja em 2017, segundo IBGE, e a produtividade média foi de 3 mil kg por hectare, o que dá 50 sacas de 60 kg. O Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

O trigo era considerado um produto complementar no início, e começou tímido, com apenas 353 hectares cultivados, mas deu certo, e em 1979, ocupava 11.467 ha, com produção de 18.319 toneladas, com uma média de 1.598 kg/ha. Atualmente, com a diversificação de cultura, o trigo ocupa apenas 1.350 hectares (dados de 2017), com 5.603 toneladas produzidas, o que confere uma média de 4.150 kg/ha.

O café se tornou uma cultura economicamente viável em 1978, quando foram produzidas 45,8 sacas, com uma produtividade de 14,7 sacas/ha. Em 1984, se produziu 67 mil sacas, alcançando 22,3 sacas/ha de produtividade entre os cooperados da CAC. Em 2016, foram produzidas 2.294.460 toneladas (38.241 sacas) e a produtividade do café em São Gotardo chegou a 71 sacas/ha na variedade Guará, 60 na Arara e 46 sacas/ha na Catuai 144. Situado a uma altitude de 1.150 metros, São Gotardo oferece condições adequadas para o cultivo do café de melhor qualidade. O Estado de Minas é hoje a maior produtora de café do Brasil, com mais da metade da produção nacional.

No início, a aposta ficou concentrada em grãos, para aproveitar a vantagem topográfica da região para o plantio e a colheita mecanizados, mas hoje, metade do faturamento da Coopadap está em hortifrútis, mais especificamente alho, cenoura, batata, beterraba e abacate.

Já se foi o tempo em que o alho só era plantado em regiões frias como a Argentina e Uruguai. Hoje, além da Argentina, a China é um grande exportador de alho. O Brasil consome 30 milhões de caixas (300 mil toneladas) por ano e importa 16 milhões (160 mil toneladas), ou seja, 55% do alho que consome. O restante é produzido em vários estados e Minas Gerais é o maior produtor brasileiro, com 4,5 mil hectares cultivados, seguido por Goías, que tem 2,5 mil ha.

Processamento de cenoura na Coopadap

São Gotardo é hoje a maior produtora brasileira de cenoura, com a vantagem de conseguir produzir quase o ano inteiro. A safra de verão é cultivada em 5.377 ha, com uma produtividade média de 65 ton./ha, e a de inverno é cultivada em 2.123 ha, com uma produtividade extremamente alta, de 90,5 ton./ha. A cenoura é uma das culturas de maior expressão econômica no município, que realiza anualmente a Festa Nacional da Cenoura, um grande evento com rodeio.

O abacate é a única fruta de expressão na região do Alto Paranaíba. A produção do abacate em São Gotardo foi de 86.547 toneladas, com uma produtividade média de 60 ton./ha em 2017, quando a produção nacional atingiu 213.041 ton., e vem crescendo a cada ano. Minas Gerais é hoje o segundo maior produtor de abacate do Brasil, perdendo apenas para São Paulo.

Selo para certificação de qualidade

Os produtores da região se uniram e criaram o Conselho Regulador da Região de São Gotardo, uma entidade que regulamenta o uso e a certificação da origem e da qualidade dos produtos que recebem a marca “São Gotardo”. Trata-se de um selo de qualidade, que é rastreável pelo QR Code. Os consumidores, em qualquer lugar que estejam, podem acessar os dados referentes aos produtos certificados e saber mais sobre os produtores, a região e os processos de produção. O Conselho foi criado em 2014 em parceria com o Sebrae, e engloba 350 produtores dos municípios de São Gotardo, Rio Paranaíba, Ibiá e Campos Altos. “O objetivo é atestar a qualidade dos nossos produtos, feitos com respeito a boas práticas agrícolas e que seguem um rigoroso controle de produção”, afirma Jorge Kiryu, presidente do Conselho Regulador, que reside em São Gotardo desde 1983, depois de ter sido funcionário da Cooperativa de Cotia.

Jorge Kiryu, presidente do Conselho Regulador, e Tomio Katsuragawa, presidente do Bunkyo Rural

Jorge Kiryu é um grande produtor agrícola e tem até uma marca própria de café, o São Gotardo, premiada como uma das melhores do Estado de Minas, vendido nas versões tradicional, extraforte, gourmet e em cápsulas, sempre com o café 100% arábica produzido no Cerrado Mineiro. Graças à sua qualidade, o Café São Gotardo já é exportado para o Japão. Embora a produção da região seja expressiva, o café ainda não faz parte da certificação do selo do Conselho, que abrange cenoura, abacate, alho e batata.

Grandes empresários agrícolas

A ocupação de São Gotardo se deu graças ao PADAP – Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba, onde a Cooperativa Agrícola de Cotia decidiu participar, convidando seus cooperados para a ocupação da chamada “nova fronteira agrícola do país”. Chegaram, a partir de 1974, filhos de agricultores, principalmente do Norte do Paraná e de São Paulo, com a idade entre 25 e 35 anos. Os pais e irmãos deles continuaram com a produção na região onde estavam e deram sustentação para aqueles jovens no início. Os jovens, para economizar, moravam em repúblicas, e assim puderam investir na preparação da terra e no cultivo. Se vários jovens tiveram êxito, não foram poucos os que desistiram da empreitada no meio do caminho.

Contando com terras mais amplas e uma topografia perfeita para a mecanização, logo se percebeu a necessidade de ter conhecimentos técnicos diferentes das que trouxeram na bagagem. A Cooperativa deu suporte técnico e logo iniciaram os projetos de irrigação. Os produtores cultivavam principalmente grãos, e não se interessaram por outras culturas, quando, na década de 1980, produtores de batata de outras regiões chegaram a São Gotardo. Inicialmente, os bataticultores arrendaram terras para começar, e passaram a usar a irrigação por pivô central, antes usada somente para grãos. Na década de 1990, começam as plantações de alho, cenoura e cebola. Nessa época, na ausência de um curso superior, os filhos dos agricultores foram estudar em outras cidades, e como os negócios estavam prosperando, muitos retornaram para a fazenda de seus pais.

Celso Mizumoto e a diretoria da Coopadap

Com a agricultura cada vez mais dependendo da alta tecnologia, a participação dos filhos nas decisões se tornou cada vez mais importante. Em 2010, já se verificava o envelhecimento dos pioneiros, os negócios se tornavam mais complexos e passaram a necessitar, não só de agrônomos, mas de profissionais com outras formações, como advogados, engenheiros de produção, administradores e contadores. Desde 2003, a cidade conta com o Centro de Ensino Superior de São Gotardo, que oferece cursos de agronomia, direito, administração, engenharia de computação, engenharia de produção e pedagogia. Há também unidades da Unicesumar, Unopar e Uniasselvi com outros cursos de nível superior. Proporcionalmente à sua população, São Gotardo é uma cidade bem equipada em termos de curso superior. No índice IDHM, que considera renda, longevidade e educação, o município tem o índice de 0,736, considerada alta.

Muitos produtores estão optando por criar uma empresa agrícola com CNPJ, onde os filhos participam como sócios. Foi a forma encontrada para administrar o negócio cada vez mais complexo e com atualização constante. Essa foi uma saída encontrada também para facilitar a passagem da direção e dos patrimônios dos pais para os filhos.

Visita a Shimada Agronegócios com os silos ao fundo

Fazenda Shimada

O grupo do Bunkyo Rural visitou a empresa Shimada Agronegócios, que é um exemplo de como a família transformou agricultores pessoas físicas numa firma familiar. A Shimada produz atualmente café, alho (200 ha), repolho, cenoura (500 ha) e abacate em grande escala e tem um projeto piloto no cultivo de blueberry. A empresa chega a movimentar mais de 600 pessoas em períodos de pico e é uma grande empregadora na região.

Renato Ishikawa, presidente do Bunkyo, e Hugo Shimada, presidente da Shimada Agronegócios

A história da Shimada Agronegócios, na região do Alto Paranaíba (Minas Gerais), tem sua origem no ano de 1975, quando o jovem Paulo Takeshi Shimada veio do Paraná para o cerrado mineiro. Caçula de uma família de oito filhos, Paulo Shimada, recém-formado em medicina veterinária , juntamente com seus irmãos, resolveu investir na nova fronteira aberta pelo Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba, o PADAP. Com muita dedicação e empenho a família Shimada progrediu em seus negócios e o caçula Paulo se destacou por sua competência e capacidade de trabalho, sempre com o apoio dos irmãos.

Com seu prematuro falecimento, em 1994, a viúva Vera Fussae Shimada, então com quatro filhos menores de idade, decidiu enfrentar os desafios e continuar com os negócios. Os filhos cresceram, e hoje, Hugo Massakazu Shimada, 39 anos, da terceira geração de imigrantes japoneses, preside a empresa com o uso de tecnologias de ponta.

Estrutura para secagem do alho

Fazenda Leópolis

A última visita programada pelo Bunkyo Rural foi na empresa da família Sekita: o Grupo Leópolis, fundado no ano de 2005, com a união de quatro grupos: Ribeiro, Esperança, Ladeira e Guaritas, com o objetivo de possibilitar melhor rotação de cultura, otimização de máquinas, implementos, mão de obra e utilização dos recursos hídricos. O nome Leópolis vem da pequena cidade do Norte do Paraná, que tem cerca de quatro mil habitantes, e que é terra de origem dos principais acionistas da empresa, como Seiji Sekita, 65 anos, atual prefeito de São Gotardo.

Sede do grupo Leópolis

Hoje, a empresa é constituída por 64 sócios e foi a primeira Sociedade Anônima estabelecida na região. Produz cenoura, alho, milho, soja, trigo, café, laranja, nos municípios de São Gotardo, Rio Paranaíba, Campos Altos e Serra do Salitre. São mais de 20 fazendas totalizando 4.617 hectares de terra produtiva. Se as terras do Cerrado eram improdutivas no início, foram cuidadas e preparadas para ser um solo fértil, e os recursos hídricos são bem administrados, com a construção de piscinões (mais parecem lagos, pelo tamanho) para onde é bombeada a água do rio no período de chuva, e que tem a capacidade de fornecer água no período mais seco para a plantação. Cultivam e preservam o solo, por exemplo, plantando brachiaria para fazer rotação com alho e cenoura. Brachiaria é utilizada para alimentar o gado leiteiro, e esse fornece dejetos que enriquecem o solo. Hoje, o grupo é o maior produtor de leite do Brasil, com o fornecimento de 65 mil litros por dia, principalmente para a marca Itambé.

O filho do fundador Seiji, Eduardo Sekita, 33 anos, é o atual presidente do Grupo Leópolis e também presidente da Coopacer, Cooperativa de Agronegócios do Cerrado Brasileiro. Já o irmão de Seiji, Tamio, 71 anos, é o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de São Gotardo, e foi o primeiro da família a se estabelecer em São Gotardo, em 1974.

Jorge Kiryu, Fabio Endo e Renato Ishikawa

Mudanças na mentalidade

No começo, a Coopadap trabalhava de maneira semelhante à Cooperativa de Cotia, ou seja, ajudava financeiramente o cooperado. Hoje atua como um agente do competitivo mercado, ou seja, não é paternalista. “Pode sim receber o pagamento de insumos após a colheita, ajudar com pesquisas e com sua estrutura, mas não empresta dinheiro para o produtor trocar de carro, por exemplo,” explica Fábio Shin Iti Endo, presidente da Coopadap. A mentalidade do produtor também é diferente atualmente. “O cooperado jovem não mantém a mesma ligação de gratidão com a cooperativa como seus pais. Ele vende o seu produto para outros se a cooperativa não oferecer preço bom, e também compra insumo fora se achar um fornecedor mais barato. Por isso temos que ser sempre competitivos”, afirma.

Hoje, a preocupação da Cooperativa não é mais a de atrair agricultores, porque a atual estrutura é suficiente para a demanda e também porque sabem que para ser bem sucedido como cooperado é necessário ter o “espírito cooperativo”, que sempre norteou os pioneiros e seus descendentes. A agricultura só prosperou no meio do Cerrado por causa da união e cooperação entre os que estavam lá para abrir a “nova fronteira agrícola do país”. O que se discute hoje é o oposto, a falta de terras para a instalação de novos empreendedores e para a expansão dos atuais produtores.

O sucesso dos agricultores nikkeis no cerrado é fonte de inspiração para os agricultores japoneses. Todos os anos são selecionados dois agricultores jovens da província japonesa de Kumamoto para conhecerem os produtores do Brasil, e eles sempre visitam São Gotardo. O presidente da Associação Kumamoto Kenjin do Brasil, Kenji Kiyohara, que é membro da comissão Bunkyo Rural, diz que os japoneses voltam com outra cabeça, com uma visão mais aberta e espírito de cooperação. “Quando houve um terremoto em Kumamoto, em 2016, esses jovens lideraram uma iniciativa de arrecadação de verba para a reconstrução da cidade”, conta Kiyohara, que completa: “Por isso, o governador faz questão de manter a bolsa, porque quem conhece uma agricultura bem sucedida liderada por jovens, tende a se tornar mais otimista”.

Carlos Kiryu e Nelson Kamitsuji, coordenador do próximo Bunkyo Rural em Adamantina

Não só de trabalho vive o são-gotardense. Para manter as tradições culturais herdadas dos imigrantes japoneses, a comunidade nikkei mantém a Associação Beneficente Cultural e Esportiva de São Gotardo – ABCESG, cujo presidente é o jovem Carlos Alexandre Kiryu, 34 anos, filho de Jorge Kiryu. Essa associação foi fundada em 1976 e a atual sede foi concluída em 1984, com dois campos de beisebol e várias atividades sociais. Depois de disputar torneios regionais e até campeonatos brasileiros de beisebol, a bola da vez é maior e mais macia: a de softbol que é rebatida nos campos de São Gotardo.

Na ABCESG, a preocupação também é com a sucessão. Apesar de contar com mais jovens do que as associações de São Paulo, a entidade percebe o distanciamento de seus potenciais associados, em parte por causa do casamento interétnico e pelo afastamento natural da cultura japonesa por já serem filhos de imigrantes de terceira, quarta e quinta gerações. E, com pouco mais de 100 famílias nikkeis na cidade inteira, a ABCESG tem poucas chances de agregar novos associados.

Essa foi a primeira visita técnica realizada pela comissão Bunkyo Rural, criada em 2009, que vem realizando anualmente o Seminário Bunkyo Rural, cujo próximo evento está programado para setembro deste ano em Adamantina.

Agradecemos ao Café Fazenda Aliança, do presidente do Bunkyo Renato Ishikawa, pelo patrocínio parcial dessa visita técnica.

Autor: Francisco Noriyuki Sato

 

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